Marcelo Pimentel, 35 anos, é casado e será pai, pela primeira vez, no final de setembro. Enquanto estava na graduação idealizou o
Dosvox, o primeiro sistema de computação para cegos 100% nacional e de código aberto. Isso no tempo em que monitor ainda era monocromático e sistema operacional era DOS – e muita gente não imagina o que isso significa.
Tem como parceiro e amigo de todas as horas Januário Pereira do Couto, 43 anos, administrador de empresas, que acaba de terminar o mesmo curso: pós-graduação, em Engenharia de Sistemas.
Fale de você.
Nasci na cidade do Rio de Janeiro, e aos 13 anos fiquei totalmente cego por descolamento de retina devido a problemas congênitos. Após muito esforço e sacrifício de minha família, consegui ingressar na faculdade de Informática da UFRJ, um dos melhores cursos do Brasil na área.
Ao iniciar as aulas, muitos professores ficaram espantados pelo fato de ter um aluno cego cursando Informática. Muitos apoiaram e deram incentivos para que eu continuasse. Outros criaram barreiras, e até mesmo se negaram a adaptar aulas/métodos para que eu pudesse acompanhar suas disciplinas.
Mesmo assim, recebi uma bolsa de iniciação científica para desenvolver um projeto de pesquisa. Foi assim que idealizei o Projeto Dosvox, o primeiro sistema de computação para cegos feito no Brasil - totalmente grátis, com código aberto. O site é mantido pela UFRJ, coordenado pelo meu orientador, José Antônio Borges.
Com o projeto Dosvox, ganhei o XIV Prêmio Jovem Cientista de 1996, bem como o título de Orgulho Carioca do mesmo ano. Após concluir a faculdade, trabalhei em várias empresas: na Modulo Security Solutions, para as eleições gerais de 1998; depois me mudei para Brasília, onde trabalhei seis anos na Caixa Econômica Federal, na área de Desenvolvimento de Sistemas. Em 2004, passei num concurso para o Ministério da Ciência e Tecnologia, onde fiquei por um ano, e desde 2006 trabalho na Justiça Federal como WebMaster e desenvolvedor de sistemas.
Nem tudo são flores na vida de um deficiente, há muitas barreiras - que me fizeram levar 11 anos para obter o meu diploma. Tudo isso por conta de preconceito e falta de sensibilidade. Nessa hora, minha mulher teve um papel fundamental. Sem ela eu não teria conseguido o meu diploma de gradução. Não foram poucos os momentos em que quis abandonar tudo.
Desde 1996 tenho trabalhado por conta própria como professor de cursos para cegos, palestrante em eventos sobre cegueira, motivação profissional, e também como consultor em acessibilidade, adaptando ambientes corporativos para a inclusão de deficientes no mercado de trabalho.
Qual é a experiência de navegar para você?
Navegar para mim representou uma nova era na forma de obter e passar informação. Antes de poder usar o PC, eu usava apenas o Braille - e nenhum dos meus amigos sabia o Braille. Por isso, a comunicação era deficitária. Além disso, as novidades, notícias e tudo mais, não estavam em Braille.
Depois do advento da Internet e dos sistemas de fala, eu posso facilmente ler as notícias do dia, acessar meu extrato bancário, comprar produtos, pesquisar preços, e também conversar on-line com várias pessoas, seja pelo e-mail ou pelos sistemas de mensagens instantâneas.
Há dificuldade de acesso na rede? Existem sites que inacessíveis por conta de sua deficiência?
Quanto a sites inacessíveis… Existem muitos mesmo… Como exemplo marcante, tome aqueles sites que pedem para digitar os malditos caracteres de confirmação que aparecem em uma imagem? Nesse caso, fica impossível continuar um cadastro, uma compra, uma consulta, etc.. [
nota: isso acontece
inclusive no site da Receita Federal]
Porque escolheu a ESAB para se aperfeiçoar? Valeu a pena?
Escolhi a ESAB porque como deficiente, a dificuldade de locomoção é muito grande, e precisava de um bom curso, que pudesse ser feito online, com horário flexível e que fosse adequado no conteúdo programático. Foi muito bom, a ESAB fez adaptações nos conteúdos para que eu e o Januário pudéssemos acompanhar o curso e não tive nenhuma dificuldade além da disciplina e do estudo.
Como você vê/sente os esforços de inclusão que a gente faz no Brasil?
Acho que iniciativas desse porte devem servir de exemplo para tantas outras instituições que não se preocupam - e às vezes não enxergam o potencial das pessoas com alguma deficiência. A sociedade por muitas vezes tolhe esse potencial. Acreditar nessas pessoas faz parte da política de criar um mundo melhor e mais justo.